Mauloa lança novo single e estimula o debate em favor da legalização da maconha no Brasil.

Mauloa - promo, 2020 | Foto: Rodrigo Ferreira

                   Nativa do centro e do sul do continente asiático, a Cannabis tem o seu primeiro registro datado na China em 4000 a.C. Por aqui em terras tupi-guaranis, o primeiro registro da planta é de 1549, quando escravos angolanos trouxeram brotos de Cannabis para as plantações de cana-de-açúcar do nordeste brasileiro. 
                   O 'pito do pango' logo se espalhou e em 1830 o Brasil já mostrava como pretendia lidar com a situação. A primeira lei proibicionista brasileira partiu da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e previa multa e até 3 dias de prisão para quem fosse encontrado utilizando ou guardando o pito. 190 anos depois, ainda estamos colhendo os amargos frutos de políticas proibicionistas e genocidas. 
                  "Em um breve estudo sobre a história da proibição, percebe-se facilmente o cunho racial e social presente no ato, tornando ainda mais explicável o comportamento de uma sociedade, em sua maioria, preconceituosa e nutrida de ódio por todos os cantos e canais." - afirma Tiago Croce.
             Em "Seu Doutô", a Mauloa marca os passos da marcha de quem luta contra todo resquício fascistóide de nossas políticas públicas. O compacto foi produzido por Henrique Villela no Sonidus Estúdio, foi masterizado por Nando Costa nos Estados Unidos e conta com as participações especiais de Hugo de Castro da Soul Rueiro e Diogo Veiga da Nagô Reggae. 
             Para esquentar os motores para o lançamento oficial do single, a banda promoveu um debate em seu Instagram que contou com dez transmissões ao vivo e uma série de 8 minidocs onde os integrantes da banda apresentam seus argumentos nesse debate ainda atual.

Contra-capa "Seu Doutô" por Rodrigo Ferreira

Capa "Seu Doutô" por Rodrigo Ferreira

                  "Enquanto as raízes da escravidão permeiam pela população, políticos e membros da 'alta sociedade'' lucram alto com políticas genocidas." alerta Mikael Gomes, em um dos vídeos. Para Pedro Alfeld, "a Cannabis já é para a ciência muito mais do que o rótulo de droga que lhe foi dado, cannabis é vida, cannabis é remédio, cannabis é cultura e também é emprego". 
                   O uso da Cannabis de forma medicinal é outro assunto bastante abordado pelos integrantes em seus depoimentos. "É preciso a gente olhar pra essa medicina, a gente tá aqui lutando pela cultura, agora vamos olhar para a cannabis e estudar ela." aponta Hugo de Castro, "são mais de 120 canabinoides já documentados e cada composto pode ter diferentes usos." - complementa Pedro.
                  "Não seria mais benéfico para a população se a usássemos de forma medicinal, cerimonial ou até industrial?" - questiona Lipe Furtado em um dos vídeos. De fato, seria. E quem responde essa pergunta é Bruno Targs: "O que acontece é que isso preocupa quem usa a inteligência a favor do egoísmo e teme a expansão da consciência humana."
                  Legalizar a maconha coloca em cheque muito mais do que usuários felizes e discursos conservadores. Em um breve comparativo com a nova política de drogas do Uruguai, a lei brasileira deixa muito a desejar. No Brasil quem for pego plantando a erva em casa, mesmo que apenas um pé, pode responder por tráfico e pegar de 5 a 15 anos de prisão. Nos nossos vizinhos a lei permite a plantação de até 6 pés por pessoa. 
                 Economicamente falando, regular e regulamentar a Cannabis pode gerar milhões em tributos, impostos e geração de empregos para o Estado. Dinheiro que pode, e deve, ser investido em saúde pública. Pegando como base uma experiência recente: o Colorado declarou ter recebido quase o dobro de impostos previstos no primeiro ano de legalização, podendo direcionar esse excedente para outras áreas que não só as estabelecidas pela tributação em cima do produto.
                "Tratando-se de uma erva ancestral e sagrada - e de seres coexistentes em um tempo e lugar no espaço -, temos o pleno direito de gozá-la, seja de maneira medicinal, cultural, religiosa ou recreativa. Mas se tratando de usuários na realidade brasileira, temos o pleno DEVER de combater o fascismo e o milicianismo dessas políticas, tal qual a ignorância e os preconceitos da opinião pública. É urgente e preciso legalizar, já que nas vielas e nos becos escorre sangue; que nos presídios, inocentes se acumulam; nos tribunais, processos urgentes se atrasam; e nas ruas, o povo preto e os pobres continuam a ser perseguidos, repreendidos, mortos." - afirma Victor Sampaio. 
                Para Thalles Oliveira, "poderíamos deixar o poderoso petróleo de lado usando a versatilidade da planta como matéria prima sustentável para combustível, tecido, papel, entre vários outros produtos." Enquanto Bruno acredita que "a proibição é hoje um dos principais responsáveis pelo uso irresponsável da cannabis."
                Se a  política de repressão já se mostrou falha. Se o uso medicinal da Cannabis já não é um mito. Do que precisamos? De mais exemplos de sucesso, ou de fracassar mais no nosso sistema? Matar inocentes é um efeito colateral de guerra, mas porque estamos em guerra? Até quando o Estado vai combater o inimigo que ele próprio criou?
                  "Em oposição ao momento trágico do nosso país, saibamos nos posicionar em qualquer aspecto que consideremos justo, sempre de forma lúcida e clara." clama Tiago. 
                  "Eleve-se por sua fumaça e goze de seus poderes, mas não se esqueça do sangue e da violência que ainda mancham a santa kaya em terras Tupi-guaranis. É preciso e urgente legalizar." - complementa Sampaio enquanto Pedro questiona: "se sua cerveja te alivia dos seus problemas porque não poderia uma nobre planta aliviar os do mundo?"
                  O single vem acompanhado de um Lyric Vídeo assinado por André Almeida e um lado b adubado. Sampaio explica que "Doctor's Dub puxa pra trás e expande os sentidos. De forma didática, transita por cada um dos instrumentos, mostrando passo a passo como se compõem as várias camadas de sons e texturas de sua faixa "A". Adubada por Viella, é puro reverb, delay e fumaça. Ao se permitir inundar de som, tudo aquilo que não cabe ser verbalizado, grita. No fone, boombox ou sistema de som, estremece os sentidos."
Assista agora ao "Doctor's Doc" completo e ouça "Seu Doutô" em todas as plataformas digitais.

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